Mortos de Curitiba têm de descansar cada vez mais longe

01 agosto, 2018

Matéria do Jornal Gazeta do Povo destaca a distância dos cemitérios e os transtornos para os clientes. Ao contrário destes cemitérios, o Jardim da Paz está localizado na Avenida Anita Garibaldi, em uma avenida totalmente asfaltada servida por várias linhas de ônibus e oferece jazigos de uso perpétuo com condições facilitadas.

Mortos de Curitiba têm de descansar cada vez mais longe
Velar os finados inclui enfrentar burocracia e longas distâncias até chegar aos cemitérios

Aloísio Redemesky, 67 anos, morto na semana passada, era um curitibano típico. Tinha sobrenome estrangeiro, passou décadas de sua vida num único bairro – o Boqueirão –, e seu enterro precisou de um imenso cortejo, com cerca de 30 quilômetros, até o Cemitério Bonfim, em São José dos Pinhais, na região metropolitana da capital. Não se sabe ao certo, mas tudo indica que ser sepultado muito longe de casa virou o destino de uma boa parte dos moradores da capital. A cidade tem 22 cemitérios, 148 mil túmulos, distribuídos numa área semelhante à do Parque Barigüi. O último empreendimento do ramo é de uma década atrás e encontrar jazigo perto de onde se mora, pela lei da probabilidade, equivale a um quase milagre.

Detalhe: dos 22 cemitérios, apenas sete estão na Zona Sul, sendo que um deles é o da Água Verde, onde a fila de espera por um túmulo ultrapassa 500 pedidos. No Boqueirão a lista é de 362 candidatos a uma cova. Outros três cemitérios sulistas são religiosos, ou seja, voltados para israelitas, luteranos e muçulmanos. Para quem não se encaixa nesse quesito, resta um cemitério meio particular, meio público, no Umbará, e um paroquial, no mesmo bairro, cujas dimensões reduzidas abrigam dizimistas e fiéis, e olha lá. “Boqueirão, Água Verde, Santa Cândida e Municipal. Esses cemitérios seguem os quatro pontos cardeais. Nenhuma área deixaria de ser atendida. Mas a cidade não cresceu por igual”, justifica Walmor Trentini, chefe do setor de Serviços Especiais da prefeitura.

A família de Aloísio sabe do que se trata. Bem gostaria de tê-lo perto de casa, mas o finado já tinha resolvido o enrosco – decidiu comprar um jazigo no Cemitério Bonfim, para tristeza de gente como a irmã Ludovica Landiosi, 69 anos. No velório, ela pensava nas distâncias que terá de vencer para visitar o mano.

“Tinha gosto que fosse no Boqueirão.” Não só ela. O metalúrgico aposentado Waldomiro Diana, 56 anos, morador da Vila Pompéia, região do Tatuquara, há cinco anos decidiu comprar um jazigo para a mãe, hoje com 86 anos. Pensou no cortejo, nas visitas, nos preços e chegou à conclusão de que a melhor escolha era investir no Cemitério de Fazenda Rio Grande, na região metropolitana de Curitiba, a 12 quilômetros de casa. “Na Água Verde não tem mais lugar”, desabafa, sobre o local de sua predileção.

Semana passada, a fatalidade. Edicarlos Teodoro Diana, 20 anos, sobrinho de Waldomiro, morreu em decorrência de uma leucemia. Jovem, inaugurou o túmulo dos Diana, hoje no valor de R$ 4 mil.

A distância pode não ser um deus-nos-acuda, mas inclui a BR e seus 40 mil carros, acrescida daquelas situações surreais que costumam marcar a rotina dos sepultamentos.

Na hora do enterro, com frio siberiano, ameaça de chuva e 80 amigos e parentes inconsoláveis com a tragédia de Edi, descobriu-se que a gaveta de alvenaria tinha 2,15 metros e o caixão 2,22 metros. O contratempo – que incluiu questionamentos absurdos sobre o tamanho do falecido – levou uma hora de desespero, atrás do pedreiro que fez o serviço, da administração e de alguém com cabeça fria para resolver o problema. “Quero um outro terreno”, protesta o indignado Waldomiro.

Fora do script

A voz de Waldomiro não é solitária. Andar pelos cemitérios é fatalmente se deparar com gente tendo de lidar com lágrimas e aporrinhações absolutamente fora do script. O sepultamento de Sibele Lourenço da Silva, 26 anos, há poucos dias, atrasou por conta de entraves burocráticos com a funerária, obrigando parentes a se virar em quatro bem na hora do “último adeus”. “Antigamente, tinha quatro empresas disputando quem ia enterrar. Agora é essa falta de sensibilidade com a gente”, lamenta Fernando Zequinão, tio de Sibele, morta em decorrência de uma cirurgia bariátrica. “Quem podia esperar?”, justifica-se, ao lado do carro funerário empacado na porta da capela do Cemitério do Boqueirão, à espera de papéis e assinaturas.

O Setor de Serviços Especiais da prefeitura municipal de Curitiba não passa impune pelos atropelos da morte. Pela repartição de dois andares, numa das pontas do Cemitério São Francisco de Paula, o Municipal, circulam as histórias de quem foi pego de calças curtas e não tem onde sepultar os seus. Estima-se que, mensalmente, uma centena de carentes recorram ao poder público em busca de uma vaga. Elas surgem em alas especiais no Boqueirão, no Umbará e no Santa Cândida. Depois de três anos, os restos mortais vão para os ossários da prefeitura, até que a família possa comprar um jazigo.

O chefe dos Serviços Especiais, Walmor Trentini, teve de adotar uma estratégia para conter a procura e identificar os realmente necessitados: para se habilitar, os candidatos precisam receber algum benefício social do governo. Tem funcionado. Foi assim que Sônia Bosquera Fagundes, 42 anos, moradora da Vila Verde e desempregada, conseguiu sepultar o companheiro Gumercindo Fagundes no Boqueirão. “Meu marido morreu de cirrose. Mas tinha apenas 43 anos, eu não esperava. Só quando aconteceu me dei conta da falta de cemitérios em Curitiba. Nem sei quantos ônibus vou ter de pegar para visitá-lo. Terá de ser em Dia de Finados”, diz.

Walmor observa todo o movimento fúnebre com caneta na mão. Ele é o legítimo “homem quem calculava”. Tanto que já não se pode falar de morte em Curitiba sem passar pelos arquivos do chefe. “Não tem jeito. A maioria é pega desprevenida”, ilustra. Para ele, contudo, o deslocamento a que os familiares se vêem obrigados a enfrentar é relativo. Dados de 1.º de janeiro a 15 de outubro deste ano mostram que 64,3% da clientela morreu nos hospitais e 17,27% em casa; outros 7,15% em vias públicas e 4,90% em unidades de saúde. “Entre 30 e 40 pessoas podem ser enterradas no mesmo jazigo e os cemitérios municipais não cobram taxa de manutenção”, diz, sobre o que seria um dos serviços mais baratos da paróquia. A prefeitura dispõe de 35 mil túmulos e contabiliza 300 mil sepultados. Em toda a cidade, são cerca de 7 mil enterros por ano. Mas dos cerca de 148 mil jazigos disponíveis, mais de 100 mil estão bem longe da Zona Sul. Dá para imaginar o que acontece.

Num dos 18 cemitérios particulares da cidade, os preços podem ultrapassar R$ 6 mil, enquanto a concessão na prefeitura é de R$ 1.930. Duro é a fila. No Municipal, tem quem espere uma vaga desde 1988. Para ser brindado, alguma família tem de literalmente abandonar seus mortos ao mato, à infiltração e não atender aos chamados da administração. Resta para os familiares de até 1,2 mil mortos por mês – somando os de Curitiba e os da região metropolitana que morrem em hospitais da capital – procurar socorro nos municípios vizinhos, como os Diana e os Redemesky.

Na Comec (Coordenação da Região Metropolitana) ainda não há nenhum estudo sobre a caravana dos mortos de Curitiba para os arrabaldes, mas o assunto tende a entrar em pauta. Não se levantou ainda o número de óbitos nem de vagas disponíveis nos 26 municípios que formam a região. À boca-pequena, sabe-se que as distâncias são longas, mas que há vagas e preços de ocasião.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/mortos-de-curitiba-tem-de-descansar-cada-vez-mais-longe-aphz6tbt5zbsz2xz82ywhmnv2

Não morra de susto, pesquise antes

01 agosto, 2018

Matéria do jornal Gazeta do Povo destaca a variação de preços e a distância dos cemitérios dos centros urbanos.

Não morra de susto: pesquise antes
Os serviços funerários são tabelados em Curitiba, mas empresas mostram que podem fugir do comum nos “extras” e aumentar a conta

Trata-se de um mercado silencioso, não muito afeito à pesquisa de preços, mas que exige muito cuidado para não estourar o orçamento de quem precisa dele, assim, de uma hora para outra. Na Grande Curitiba, a reportagem da Gazeta do Povo encontrou uma diferença de até 470% entre itens básicos – jazigos e taxa de manutenção anual do cemitério, por exemplo –, sem contar os extras. De flores a mais à revoada de pombos, a criatividade das empresas do ramo, a maioria de caráter familiar, vai longe.

Em Curitiba, os custos de caixões e serviços funerários seguem oficialmente uma tabela estabelecida pela Prefeitura – que, aliás, subiu 16% em julho. São tabelados os preços de 14 caixões, além de serviços essenciais como o quilômetro rodado do traslado e a ornamentação dos caixões. Por outro lado, os cemitérios particulares (pelo menos 19 atuam na região) são o nicho mais livre do ramo fúnebre e, consequentemente, o mais diversificado. “É livre mercado completo”, afirma Robson Posnik, presidente do Sindicato dos Cemitérios Particulares do Paraná (Sincepar).

Considerando a área padrão de um jazigo (2,05 de comprimento por 85 centímetros de largura), o custo do metro quadrado vai de R$ 4.017 a R$ 25.862 – segundo cálculo em cinco cemitérios particulares da região. O tamanho do lote onde o jazigo está instalado é que faz a maior diferença. É uma fator que entrega as diferenças sociais a um olhar mais atento. Há desde lotes estreitos – jazigos separados um do outro por centímetros –, até jardins privativos cercados de R$ 45 mil.

E não se gasta apenas na compra do lote: os cemitérios cobram uma taxa para a manutenção da área. É uma espécie de condomínio perpétuo que pode custar de R$ 240 a R$ 4 mil anuais. Aliás, os cemitérios cobram por serviços sobre os quais a maioria dos clientes só toma consciência na hora da compra. É o caso do sepultamento em si, que varia de R$ 430 a R$ 650; ou do custo de placas e lápides, um dos produtos cujo preço mais oscila.

Já os crematórios da região buscam quebrar os preconceitos da clientela com dois fatores: preço e serviços diferenciados. O Perpétuo Socorro, em Campo Lago, por exemplo, aposta em preço. A tabela é enxuta, mas atrativa: a cremação custa de R$ 1,5 mil a R$ 1,8 mil (este último inclui capela e cerimônia). As urnas para guardar as cinzas custam de R$ 50 a R$ 3 mil. “O objetivo do crematório, quando foi aberto, era popularizar a cremação, considerada coisa de rico”, conta o administrador Édson Luiz Mattos.

Nesse mercado, nem tudo pode ser parcelado

Alguns cemitérios topam negociar, mas não são todos – o mesmo ocorre com funerárias, escolhidas por sorteio para cada cliente. Boa parte das empresas afirmam não aceitar cartão de crédito. Ou seja, sepultar alguém na Grande Curitiba pede que a família tenha dinheiro em caixa disponível. Muitas famílias acabam se endividando, conta o diretor do Cemitério Parque Memorial Graciosa, Ermínio Malatesta.

“Costumamos falar que existem três perfis de clientes. Há os de classe alta, que passam um cheque e pagam de vez; a classe B, mais complicada para negociar porque estão sempre endividados; e a classe C, que fica perdida, precisa emprestar dinheiro, vender carro. Para eles, interessa muito o parcelamento”, conta ele, que oferece jazigos em Quatro Barras em até 36 vezes, com entrada.

Financiamentos (sempre com entrada) têm sido um chamariz das empresas para não perder a clientela endividada. A maioria das negociações é de dez a 48 parcelas. O Cemitério Parque São Pedro, no Umbará, já chegou a aceitar 60 parcelas. O que impediu o negócio foi a inflação, conta o administrador Ronaldo Vanzo. “Tentamos deixar a parcela mais acessível, mas a inflação não ajudou. Como as parcelas do carnê são fixas, não dava para corrigir depois”, afirma ele.

Locação

Outro serviço que surgiu da necessidade da clientela foi o aluguel de jazigos. O sepultamento dura o tempo de três anos – o prazo de legislação da cidade para ocorrer a exumação do corpo. Findo o tempo, a família está comprometida a exumar o cadáver e armazenar os restos mortais em um ossuário. O aluguel custa cerca de R$ 1,5 mil; exumação e ossuário, de R$ 2,2 mil a R$ 3,3 mil. Mas nem todas as empresas aderiram ao serviço. “É comum as pessoas desaparecerem. Não pagam o aluguel nem removem o corpo”, afirma Malatesta.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/economia/nao-morra-de-susto-pesquise-antes-chioxn6ctnqep5850o1ufmszy

 

O Cemitério Jardim da Paz está convenientemente localizado em Curitiba, em avenida asfaltada, com fácil acesso por carro e ônibus e oferece valores acessíveis e parcelamento facilitado.

Home